Existe um sistema na nossa mente que é simultaneamente dos mais antigos e dos mais
eficazes, mas que por vezes exagera, e em lugar de nos proteger, deixa-nos
sobressaltados, ansiosos, hipervigilantes. Chamamos-lhe, frequentemente, modo
sobrevivência.
Estás aqui hoje porque o teu tetra-tetra-tetra avô pré-histórico não foi devorado por um
tigre dentes de sabre.
Este sistema foi determinante para a evolução humana. Durante milhares de anos, a sua
principal função foi simples e vital: detetar ameaças e preparar o corpo para reagir
rapidamente ao perigo. Foi graças a ele que os nossos antepassados conseguiram
escapar a predadores, procurar abrigo, evitar situações potencialmente fatais e garantir a
continuidade da espécie.
Podemos dizer, sem exagero, que devemos a este sistema o facto de estarmos aqui hoje.
Mas nos dias de hoje, esse sistema faz-nos ver perigos onde estes por vezes não
existem, e reagirmos de uma forma exagerada, e que não nos protege de todo.
O que é, afinal, o modo sobrevivência?
O modo sobrevivência é uma resposta automática do nosso sistema nervoso perante
aquilo que interpreta como perigo. Quando ativado, prepara-nos para três respostas
principais: lutar, fugir ou congelar.
Este mecanismo continua a existir porque continua a ser necessário. Ainda hoje, perante
uma ameaça real, como um acidente iminente, uma situação de perigo físico, ele é
essencial para nos proteger.
O problema não está no sistema em si. O problema surge quando ele começa a ser
ativado em situações que já não representam perigo real, mas que são interpretadas
pelo cérebro como se fossem.
Quando o passado interfere com o presente
O nosso cérebro não evoluiu ao mesmo ritmo que a sociedade onde vivemos. Enquanto o
contexto mudou drasticamente, muitos dos nossos mecanismos internos continuam
programados para responder como se estivéssemos num ambiente constantemente
ameaçador.
Nos tempos modernos, estamos mais protegidos, e não é com frequência que enfrentamos ameaças fisicas, e muito menos animais selvagens perigosos . No entanto, o cérebro
pode reagir de forma semelhante perante situações como:
- Medo de falhar
- Conflitos interpessoais
- Instabilidade emocional
- Pressão profissional
- Experiências passadas não resolvidas
- Sensação de rejeição ou abandono
Quando o modo sobrevivência permanece ativo durante longos períodos, pode
manifestar-se através de vários sinais, como:
- Ansiedade e sensação constante de alerta
- Hipervigilância
- Dificuldade em confiar em si ou nos outros
- Reatividade emocional
- Autocrítica excessiva e perfeccionismo
- Dificuldade em descansar ou “desligar”
- Comportamentos compulsivos, vícios ou outras formas de regulação emocional disfuncional
- Dificuldade em estabelecer limites saudáveis
Estes sinais não são falhas pessoais. São, muitas vezes, estratégias de proteção que
se tornaram desajustadas ao contexto atual.
Quando aquilo que nos protege também nos limita
Existe uma aparente contradição neste sistema: aquilo que foi criado para nos proteger
pode, em determinados momentos, tornar-se uma fonte de sofrimento.
Quando vivemos demasiado tempo em modo sobrevivência, deixamos de ter espaço
interno para outras experiências fundamentais, como:
- Sentir segurança emocional
- Estar presente nas relações
- Reconhecer e usufruir de momentos positivos
- Desenvolver criatividade e espontaneidade
- Tomar decisões alinhadas com os nossos valores
Em vez de viver, passamos sobretudo a reagir.
É possível sair do modo sobrevivência?
Mais do que “desligar” este sistema — algo que nem seria desejável — o objetivo passa
por aprender a reconhecê-lo, compreendê-lo e regulá-lo.
Esse processo implica, muitas vezes:
- Desenvolver consciência sobre os próprios padrões emocionais e comportamentais
- Identificar gatilhos que ativam respostas automáticas
- Aprender novas formas de lidar com emoções difíceis
- Trabalhar experiências passadas que possam estar a influenciar o presente
- Construir uma relação interna mais segura e compassiva
Este processo é, no fundo, uma forma de ressignificar experiências e respostas
internas, permitindo que o sistema de proteção continue a existir, mas de forma mais
ajustada e menos limitadora.
Uma reflexão final
Vale a pena parar e perguntar:
Será que o modo sobrevivência está demasiado presente na forma como te relacionas
contigo, com os outros e com a tua vida?
Este artigo baseia-se numa partilha que fiz originalmente na página de Instagram da Ressignificar.
Se te suscitou curiosidade, podes sempre dar-lhe uma vista de olhos abaixo.
Qualquer comentário, dúvida ou partilha, estou sempre por aqui.
Obrigada pela tua presença.